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Autismo em meninas e mulheres: por que o diagnóstico pode passar despercebido?

A camuflagem social pode dificultar o diagnóstico e atrasar a busca por apoio.

Foto de perfil doutora Maria Aparecida Fontana

Dra. Maria Aparecida Fontana

Psiquiatra

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O autismo pode se manifestar de formas diferentes em cada pessoa.

Em meninas e mulheres, algumas características podem passar despercebidas durante a infância e a adolescência, especialmente quando existe um esforço intenso para imitar comportamentos sociais considerados esperados.

Em entrevista ao programa SC no Ar, a Dra. Maria Aparecida Fontana falou sobre esse fenômeno e sobre os desafios do diagnóstico do autismo em meninas e mulheres.

Por que o autismo pode passar despercebido?

Na entrevista, a Dra. Cida explica que algumas meninas conseguem iniciar conversas, fazer gestos socialmente esperados e até começar amizades.

Mesmo assim, podem ter dificuldade para manter essas relações e para compreender determinadas situações sociais.

Esse esforço de observar, imitar e tentar se adaptar pode dificultar a identificação do autismo.

A pessoa parece estar acompanhando a interação, mas pode estar gastando muita energia para entender o que dizer, como agir e qual resposta seria considerada adequada.

É esse esforço de adaptação que a médica relaciona ao conceito de camuflagem.

O que é camuflagem no autismo?

A camuflagem acontece quando a pessoa tenta esconder ou compensar dificuldades sociais para se adequar ao ambiente.

Na prática, isso pode envolver imitar conversas, expressões, gestos ou formas de iniciar uma amizade. Esse comportamento não significa que a pessoa não enfrente dificuldades.

Em alguns casos, ela pode conseguir participar de uma conversa, mas ter dificuldade para compreender regras sociais menos explícitas, manter vínculos ou lidar com o esforço de estar constantemente se adaptando.

Como consequência, a camuflagem pode fazer com que sinais importantes não sejam percebidos por familiares, professores e até profissionais. A pessoa pode passar anos sendo vista apenas como tímida, retraída, distraída ou diferente, sem que suas necessidades sejam compreendidas.

Quais sinais podem merecer atenção?

A Dra. Cida destaca que o autismo envolve aspectos relacionados à comunicação e à socialização, além de comportamentos repetitivos ou estereotipados.

Em meninas e mulheres, alguns sinais podem aparecer de maneira menos evidente.

Entre os aspectos que merecem atenção estão:

  • dificuldade persistente para manter amizades, apesar de conseguir iniciar conversas;

  • necessidade de observar e imitar outras pessoas para saber como agir socialmente;

  • esforço intenso para adaptar a fala, os gestos e as respostas durante as interações;

  • sofrimento ou exaustão depois de situações sociais;

  • dificuldades que permanecem mesmo quando a pessoa demonstra boa capacidade de conversar;

  • comportamentos repetitivos ou interesses muito específicos;

  • diferenças na forma de lidar com mudanças, interações e situações do cotidiano.

Esses sinais não devem ser usados como um teste ou como forma de concluir um diagnóstico. A presença de uma característica isolada não confirma autismo.

O que importa é compreender o conjunto da história e das dificuldades apresentadas pela pessoa.

Ansiedade, depressão e estresse podem aparecer junto?

Durante a entrevista, a Dra. Cida afirma que o esforço constante para imitar comportamentos e se adaptar pode estar associado ao aparecimento de ansiedade, depressão e estresse.

Isso não significa que toda pessoa autista terá esses quadros. A questão é que passar muito tempo tentando esconder dificuldades, sem apoio adequado, pode aumentar o sofrimento emocional.

Por isso, é importante olhar além do comportamento visível.

Uma menina que participa de uma conversa ou parece acompanhar os colegas pode ainda estar enfrentando dificuldades importantes. O modo como ela se sente antes, durante e depois das interações também merece ser considerado.

Por que algumas mulheres recebem o diagnóstico mais tarde?

Quando os sinais não são reconhecidos na infância, a mulher pode chegar à adolescência e à vida adulta sem compreender por que determinadas situações parecem mais difíceis para ela.

A entrevista destaca que o diagnóstico tardio pode significar a perda de oportunidades de receber apoio e desenvolver estratégias durante fases importantes da vida.

A pessoa pode ter enfrentado por muitos anos dificuldades nas amizades, na escola, no trabalho ou em outros ambientes sem uma explicação clara. O diagnóstico não apaga essa história, mas pode ajudar a organizar a compreensão sobre as próprias experiências e indicar quais formas de apoio podem ser consideradas.

O que fazer diante de uma suspeita?

A recomendação apresentada pela Dra. Cida é buscar uma avaliação profissional quando familiares, professores ou a própria pessoa percebem diferenças persistentes na comunicação, na socialização ou no comportamento.

O cuidado pode envolver uma equipe multiprofissional, de acordo com as necessidades identificadas na avaliação.

A psiquiatra cita áreas como terapia ocupacional, fonoaudiologia e fisioterapia quando existem alterações que precisam ser acompanhadas.

Buscar orientação não significa concluir antecipadamente que uma pessoa é autista. Significa procurar compreender o que está acontecendo e avaliar quais apoios podem contribuir para sua vida cotidiana.

Diagnóstico também deve significar inclusão

Ao final da entrevista, a Dra. Cida chama atenção para um ponto que vai além do diagnóstico: estar presente em um ambiente não significa necessariamente estar incluída nele.

Uma pessoa autista pode frequentar a escola e, ainda assim, ser excluída das brincadeiras, dos grupos e das atividades coletivas. Pode estar presente, mas não receber oportunidades reais de participar.

A inclusão depende de informação, empatia e disposição para conviver com diferentes formas de comunicação, comportamento e interação.

Quando a sociedade compreende melhor essas diferenças, todos podem participar de maneira mais respeitosa.

Informação pode ser o primeiro passo

O autismo em meninas e mulheres pode passar despercebido quando a avaliação considera apenas os comportamentos mais conhecidos ou mais evidentes.

A camuflagem social pode dificultar a identificação das necessidades da pessoa e contribuir para que ela busque ajuda apenas mais tarde.

Reconhecer essa possibilidade não significa fazer diagnósticos pela internet. Significa ampliar o olhar para histórias que nem sempre aparecem da mesma maneira.

Se você percebe dificuldades persistentes de comunicação, socialização ou adaptação, procure uma avaliação profissional. Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento.

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